As Pequenas Comunidades Cristãs em Moçambique




As Pequenas Comunidades Cristãs (PCC) da Igreja Católica em Moçambique surgiram como fruto quase espontâneo, após a independência do país (1975), num contexto assinalado por dois acontecimentos marcantes: pelo lado eclesial, o fim do Concílio Vaticano II, com toda a euforia, o fervilhar do aggiornamento e a esperança por ele suscitados; do lado político, a luta armada contra o colonialismo português e a consequente independência, sob um regime de cariz marxista-leninista, com as inerentes vicissitudes sobre a vida da Igreja.

Contexto eclesial: da cristandade colonial à comunidade ministerial

Preliminarmente recordemos que o estatuto da Igreja Católica, nas colónias portuguesas, se regia pela Concordata (1940) e pelo Acordo Missionário (1941) celebrados entre o governo português e a Santa Sé[1]. Os missionários ficavam comprometidos na portugalização, pela difusão da língua, da história e da cultura portuguesas, sobretudo a partir das escolas-capelas (designadas, na linguagem pastoral de então, por “cristandades”) confiadas a professores-catequistas. A evidente ambiguidade destes dois binómios - escola-capela e professor-catequista – agravava-se noutros dois de nível superior - Administração-Missão e Governo-Igreja – prejudicando a imagem, a missão e a liberdade da Igreja, acabando, com justiça, por ficar acusada, antes e depois da independência do país, de ser um apoio do colonialismo[2].

Manuel Vieira Pinto – O visionário de Deus
Com a chegada deste bispo a Nampula (1967), cresce e articula-se melhor o impacto renovador da Igreja de Moçambique. Na diocese, “em 1968, iniciámos os primeiros encontros pastorais à luz do Concílio e lançámos os primeiros fundamentos da viragem que se impunha”[3]. A sua primordial intuição visionária, inconformista e renovadora, ad intra e ad extra ecclesia, emerge em todos os seus documentos. Em “A caminho de novas estruturas missio-pastorais (1969) e Estamos numa hora de viragem (1971), e outros, desafia os agentes pastorais, padres e não-padres, a acolherem os ensinamentos conciliares, enquanto “dinamismos de acção” (Pinto,1969). A partir da Lumen Gentium e da Gaudium et Spes, explicitadas no decreto Ad Gentes, questionava:
Certamente que o tempo das cristandades passou. (…) A actividade missionária, se é genuína, deverá fazer nascer e crescer comunidades que vivam e manifestem a comunhão activa e responsável, o espírito de serviço fraterno, o testemunho do mistério de Cristo e possam, “deste modo, tornar-se, no meio do mundo, um sinal da presença de Deus" (AG 15)[4].
Ao Conselho de Presbíteros, em jeito de exortação e esclarecimento, advertia:
Vindes numa hora em que o Espírito de Deus sopra com violên­cia e exige de todos os cristãos - mas particularmente dos seus bispos e presbíteros - uma disponibilidade sem cálculos e sem perdas de tempo. Estamos, com efeito, numa hora de viragem[5] e, por isso mesmo, nu­ma hora de desafio.

Entre outras características, desta hora de viragem, alertava para
a passagem duma Igreja ainda bastante clerical para uma Igreja mais Povo de Deus, mais adulta, na sua voz e nos seus gestos; uma Igreja onde cada membro - presbítero, re­ligioso ou leigo - tenha consciência da sua dignidade, da sua vocação e da sua corresponsabilidade; uma Igreja onde todos sintam que são, de pleno direito, Povo de Deus e tenham, efectivamente, voz para concordar, para discordar, para aconselhar, para proclamar o Evangelho, para construir a comunidade cristã e testemunhar a fé e o Amor; uma Igreja onde todos possam e saibam falar, onde todos possam e saibam ouvir, ultrapassando de vez aquelas "cristandades" onde falar compete apenas aos padres o ouvir aos "seus cristãos"[6].

É nesta rápida percepção da hora da viragem que, aproveitando um trabalho pioneiro do Padre Graciano Castellari (comboniano), é criado o Centro Catequético Paulo VI (Anchilo), inaugurado em 1970, que se tornou o laboratório e o coração pastoral da diocese, tanto na formação dos animadores emergentes, como dos missionários recém-chegados.
Esta é a efervescente atmosfera pastoral no fim do tempo colonial que serve de berço às PCC nos anos da independência (1975) liderada pela Frelimo.

Contexto político
O marxismo-leninismo foi o paradigma da Frelimo durante muitos anos, tanto no domínio político-económico como no social, e, especificamente, no religioso. Reco-nheceu constitucionalmente a liberdade religiosa, mas, embora se não possa falar de declarada perseguição religiosa[7], praticou uma persistente obstaculização[8]. O ateísmo proclamado, a plenos pulmões, aparecia como a postura oficial do estado. As críticas às instituições religiosas eram contundentes e quotidianas. A Igreja Católica, dado o seu recente passado histórico de colaboração com o governo colonial, ao abrigo do Acordo Missionário, era especialmente visada.
Os anos 1975-1980, da euforia revolucionária marxista-leninista, foram de grande perturbação. O medo de se declarar crente invadiu toda a gente, e, no caso dos funcionários públicos, sobretudo os professores, até o medo de perder o ganha-pão. Assiste-se a uma acentuada dispersão dos cren­tes. As igrejas esvaziam-se, sobretudo nas cidades, onde viviam os mais letrados ou “evoluídos", incluindo os ex-seminaristas. Ficou um punhado de pobres, sobretudo nas zonas rurais. Havia quem se perguntasse: quem terá razão? A Frelimo ou a Igreja?
Mas foi nessa conjuntura que sentimos tratar-se do vento purificador do Espírito Santo. Era hora de apostar nos pobres, nos sem-voz e despre­zados deste mundo. Era a hora da Graça! Depois de um tempo de dispersão e desorientação, os tais pobres foram reunindo entre si, para rezarem conforme podiam e sabiam. O vento político que os molestava foi-os tornando menos tímidos, mais autónomos e conscientes. A fé simples e popular exercitou-se. Aos poucos, perceberam e experimentaram que a sua hora chegara. A coragem de alguns mais inconformados com as restrições políticas começou a congregar os vizinhos.
Um testemunho eloquente
Nada melhor do que passar a palavra ao emergente e intrépido animador José Laica, animador das comunidades da Paróquia de Nataleia[9]. Na sua simplicidade ele nos evidencia a génese da Igreja das comunidades ministeriais na interacção de três vectores: a opção conciliar da Igreja local sob a liderança do Bispo Vieira Pinto, a consciência reagente e renovada dos cristãos simples e o contexto político.
Palavras de José Laica:
O processo de encerramento das nossas capelas começa em 76. Disseram que «já se não pode rezar nada, não queremos ninguém rezar». Para rezar era preciso escondidos, debaixo de uma árvore. Os professores continuavam a ameaçar. O administrador Mateus, antigo combatente, fez uma ofensiva para capturar os cristãos que andavam a rezar. Mas, mesmo com essas ameaças, as igrejas continuaram.
No mesmo ano de 76, em Setembro, resolvemos construir uma capela, mas fora. O administrador negou. Mesmo assim a gente voltou a reunir e decidimos construir mesmo não avisando. Quando ele viu só começou a ameaçar mas não conseguiu. Ficámos ali ainda a rezar o Ter­ço. Ainda não era a Celebração da Palavra. Nesse ano de 76 muitas capelas ficaram encerradas e de vez não rezavam. Muitas desaguentaram. Só 4 comunidades aguentaram na oração do Terço.
Os primeiros ministérios
Em Março 77 vieram, de Malema, os irmãos Duarte Culete e Manuel Iuculaka que foram preparados no Anchilo. Ficámos a conversar durante todo esse ano. Que não podíamos ter medo nem vergonha; nem ligar àquele boato que passava, àquela ventania. Deram-nos força atra­vés da iluminação do Espírito Santo e sentimos que realmente podíamos aguentar. E aguentámos. Foi então que me escolheram para ser Catequista. Ainda não havia Ancião. A comunidade cresceu. A pouco e pouco, aqueles que tinham desanimado começaram a vir.

Nesse ano de 77 visitou-nos também o pároco, o Padre Godinho, que residia na Paróquia do Mutuàli (90 Kms). Disse que devía­mos continuar com a Palavra de Deus, que não podíamos ter medo; que devíamos obedecer às ordens do governo mas não deixarmos de rezar; não aceitarmos o boato.

Em 1978, o Duarte Culete, pediu-nos para vermos como ressuscitarmos a nossa paróquia de Nataleia. Fizemos a eleição dum Responsável que ligasse ao Duarte Culete. Nessa altura ele era ancião da comunidade de Xiline na vizinha Paróquia de Malema.
A comunidade, todos os cristãos disseram que “nós confiamos no José Laica, ele é que merece para recolher as novidades a nível da Paróquia; ele deve ser o Catequista dos Catequistas”. Para ancião foi eleito o Hilário Muaqueia. Era a primeira escolha de anciãos.
Era a primeira vez que estávamos a ouvir esta pala­vra.

Como vemos, do dinamismo da base emergem os ministérios e os respectivos animadores. Duarte Culete era um ancião de uma comunidade da vizinha Paróquia de Malema que teve um papel de verdadeira liderança na re-animação e geração de todas as comunidades tanto da sua paróquia de Malema como da vizinha Nataleia. Por isso viria a ser constituído, em 1980, Animador da Paróquia de Malema com funções de Pároco, à semelhança de outros quatro: Mutuáli (no mesmo distrito de Malema), Marrere, Caramaja e Murrupula.

Crescimento nas provações e pela formação de animadores
No mesmo dia, o irmão Culete ensinou-nos como fazer a Celebração da Palavra de Deus. Assim começámos a recuperar, a ver o caminho; o caminho novo, agora! Ficámos satisfeitos. Começámos a ter força.
(…)
Em 78 fui escolhido para participar num curso sobre Os Actos dos Apóstolos. Continuei a dar mais força aos irmãos. As igrejas que estavam já mortas começaram a renascer.
Eram as primeiras comunidades. Novos cristãos! Em vez de irem os mais antigos, iam novos. Havia muitos catecúmenos. As comunidades começaram já a abrir os olhos. Amadureceram através daquelas ameaças. Aquela ameaça também trabalhou! Fez levantar as pessoas. O Administrador continuou a bater, a ameaçar forte e feio. Mas os cristãos já não sentiram medo. Hoje são 23 comunidades. Mesmo com a guerra, todas as comunidades estão a funcionar. Só se mudaram dos respectivos lugares[10].

Em 1979 escolhem-me como ancião da Paróquia de Nataleia. Participaram na eleição só os cristãos maiores, reunidos na comunidade de Xipaka. Como ancião paroquial, fazia ligação com o Duarte Culete. Ele é que era o nosso pai. Organizava, tratávamos assuntos com ele. Nas dificul­dades tínhamos que o chamar. Ele canalizava para o Bispo. Então os cris­tãos de Nataleia-Sede recuperaram. Foi escolhido o próprio ancião, o Carlos Wilson.
Durante os anos 78-80 fomos frequentando cursos no Anchilo. Os anciãos, os catequistas, e também mulheres. A minha esposa, as dos cate­quistas, Arnaldo Riveque[11] e do cate­quista de Xipaka e ainda a do ancião da comunidade de Xipaka-Nahipa.
Agora começávamos a abrir os olhos, nin­guém nos podia enganar mais. Agora era abrir os olhos.
Começaram a surgir as actividades. Primeiro a Ce­lebração da Palavra; depois a Catequese, a Ajuda Fraterna, etc. Quer dizer, as Comunidades cresciam com os seus ministérios. Embora haja muita guerra, todos estão a funcionar.

Como vemos, na génese da nova Igreja Ministerial de Base, cuidámos muito criteriosamente de confiar nos animadores emergentes, homens ou mulheres. Providenciava-se-lhes a adequada formação no Centro Catequético Paulo VI (Anchilo) de forma a poderem responder às necessidades que surgiam no crescimento das comunidades

O menos desenvolvido, diz ainda José Laica, deve ser o Ministério da Ajuda Fraterna, por causa da guerra que ocupou as machambas. Onde era terreno muito fértil já não pisa ninguém. Para a Ajuda Fraterna as comunidades fazem machambas para apoiar os doentes, pessoas incapazes, que não podem cultivar, que não podem ter sua comida. É pre­ciso então abastecer.
Há também certas machambas-cooperativas, por iniciativa da Cáritas, que são pequenos projectos de desenvolvimento. Umas, como Xipaka, está com doze; Nataleia com quinze.

Uma Igreja que renasce do coração do Povo…
Segundo este testemunho, a independência e as vicissitudes que ela trouxe à sua vida, foi vivido por toda a Igreja moçambicana, como “um tempo de Deus”. Foi um tempo de graça com um extraordinário surto de multiplicação das PCC, por iniciativa dos cristãos simples, impedidos de terem a regular presença dos padres. Era a sementeira iniciada com a criação dos Centros Catequéticos da Beira (1967), de Nampula (1969) e de Guiúa/Inhambane (1972) frutificando, agora, em terreno e oportunidade propícios. A nova consciência eclesial que ali se ganhara tornava-se agora operacional. Os ministérios eclodiram com muita espontaneidade e, com expectante entusiasmo, acompanhados pelos missionários.
Sem dúvida, neste doloroso parto, era a Igreja de Moçambique independente que renascia descolonizada. Dum momento para o outro, a estrutura missionária que, durante anos, fôramos incapazes de reformar, ruía. Os professores-cate­quistas, ajudantes dos padres, desapareciam. Tudo se desmoronava. Tudo nascia de novo, pelo vento parturiente da Frelimo, motor descolonizador. Por Graça de Deus![12]
As palavras do saudoso animador, José Laica, deixam bem claro o entusiasmante processo da génese eclesial que fermentou o renascimento e a descolonização de uma Igreja desclericalizada em Nampula, como tão insistentemente no-lo recomenda, hoje, o Papa Francisco, incluindo no discurso aos Bispos de Moçambique, em recente visita ad limina Apostolorum. Também nisto o bispo Vieira Pinto foi pioneiro.
O processo foi semelhante em todo o país. Reunida em “concílio” para captar o que o “Espírito diz às Igrejas”, e delinear as veredas por onde prosseguir a caminhada, na I Assembleia Nacional de Pastoral, (Beira, Setembro de 1977), a Igreja de Moçambique disse, de si mesma, em palavras tão singelas quanto recheadas de esperança e convicção:
Saídos duma Igreja triunfalista [...] para uma Igreja despojada e pobre [...] preocupada com a sua renovação interna, sentimo-nos a caminho duma Igreja de base e de comunhão, uma Igreja-família, de serviços recíprocos, livremente oferecidos, uma Igreja no coração do povo que a faz sua, inserida nas realidades humanas e fermento da sociedade. Tal facto leva-nos a dar novo impulso ao trabalho de suscitar, animar e incrementar a vida de pequenas comunidades para que essa vida cresça cada vez mais, de modo a favorecer a iniciativa e a responsabilidade de todo o Povo Deus na edificação da Igreja local[13].

… e se exprime em serviços vários
Na multiplicidade das dificuldades políticas que persistiram até meados dos anos 80, foi um exercício de verdadeira confiança na explosão do Espírito, activo e manifestado na dedicação de uma multidão de homens e mulheres, simples fiéis baptizados. Empenhados até ao limite das suas forças e dos seus saberes, com uma extrema humildade, respondiam, com singeleza, aos desafios de cada dia. Foram motores da construção de uma Igreja-comunhão, participativa, em completa ruptura com a Igreja-consumo, domesticada e clerical do regime de cristandade colonial determinando que a Paróquia fosse evoluindo de uma «estação de serviço ou supermercado» rumo a uma viva e orgânica Comunidade-de-Comunidades.
A consciência da corresponsabilidade assim experimentada, pela sobrevivência de uma Igreja que muitos, dentro e fora do país, julgavam votada ao fracasso, foi-se generalizando e penetrando as mentes do maior ao mais pequeno. A Igreja renasceu no coração do povo que a fez sua. Tornou-se consciência e vivência do sacerdócio baptismal, a pouco e pouco desabrochando na multiplicidade de ministérios à medida e ao ritmo da vida das comunidades, tais como:
► Serviços da Coordenação, Presidência e Comunhão Fraterna, exercidos por «Anciãos» es­colhidos pelas comunidades e confirmados pelo Bispo ou pelos párocos, conforme o nível de responsabilidade;
► Os referidos ao Serviço da Palavra, diversificados na animação da Celebração Dominical e das Catequeses, tanto de crianças como de adultos;
► O Serviço de Ajuda Fraterna, com incidência no cuidado dos pobres, dos doentes, das viúvas e dos velhos;
► O Serviço da Justiça e da Paz e o do Desenvolvimento.
► Os ministérios litúrgicos diversos - leitores, cantores, acolhimento, funerais – além do da presidência.

ONDE ESTAMOS HOJE?
Podemos dizer que os conceitos básicos de há 40 anos, da génese das Pequenas Comunidades Ministeriais, subsistem, até hoje, em todas as dioceses. Evidencia-o a linguagem, tanto ao nível dos pastores mais qualificados, bispos e presbíteros, como do comum dos cristãos em geral, bem como a participação das comunidades na escolha dos seus ministros não ordenados: anciãos, catequistas, animadores paroquiais e de zonas, etc.
Apesar de um grande crescimento do número dos padres diocesanos ao longo destes 40 anos de independência, a escassez de clero continua a ser uma vantagem. Graças a Deus! Parecendo um factor negativo, ela contraria a tendência clerical, sobretudo dos padres mais novos, não sensíveis à pedagogia pastoral da corresponsabilidade. Assim, os animadores locais, simples baptizados, têm algum espaço de iniciativa própria, não se limitando a serem simples “ajudantes” ou “substitutos” dos padres. Pessoalmente, continuo a ser cuidadoso na prática do que chamo de “pedagogia da ausência”, desafiando o sentido de responsabilidade e criatividade dos animadores locais. Além disso, mesmo estando presente, faço questão de respeitar a presidência dos anciãos na celebração da Palavra para que eles sintam que são, de direito baptismal, e não por suplência, ministros da Igreja. Em 40 anos de ministério presbiteral, sempre aprendi a não ser o padre-faz-tudo.
Duma maneira geral, as pessoas gostam de participar das diversas tarefas das comunidades. Há, de facto, um sentimento de pertença. Porém, não conseguimos acompanhar com a necessária formação, garantia de qualidade, sobretudo dos ministérios nucleares – celebrações, catequese e justiça e paz – a multiplicação das comunidades. Continua a ser um enorme desafio para todas as Igrejas locais.
Para salvaguardar as vantagens das PCC em ambientes com tendência para a massificação paroquial, surgiram várias experiências que se traduzem na criação de PCC de vizinhos. Nas cidades do Maputo e Nampula são chamadas, respectivamente, por “núcleos” e “grupos” de oração. Ocupam-se também dos serviços de caridade e acompanhamento das famílias. No entanto, apesar de se tratar de uma opção pastoral tão louvável, já se ouve, por vezes, queixas de pessoas que acusam esta estrutura de se ter endurecido com laivos de farisaísmo. Quem não frequente um grupo de oração, poderá encontrar dificuldades junto do padre-pároco quando, por exemplo, quiser baptizar ou crismar os filhos.
Travões no dinamismo inicial
No entanto, não se tem mantido o dinamismo criativo e espontâneo de há 40 anos, como José Laica no-lo deixou acima testemunhado. Vários factores têm contribuído para isso. Desde logo, com o fim do regime de partido único, desapareceu o contraditório, desafiante e salutar aguilhão ateísta. Instalou-se um certo comodismo religioso, desprovido da veia profética da fé. No dizer do Bispo de Nacala, Germano Grachane, “temos comunidades de pagãos baptizados”.
Por outro lado, o conceito de territorialidade paroquial com o respectivo clérigo/pároco que a dirige esbateu a COMUNIDADE como tópico principal da génese ministerial. Os jovens padres que não viveram as vicissitudes da época da independência não saborearam a originalidade pastoral daqueles dias e a crescerem, como eu, com as comunidades emergentes. Assim, tendem mais a serem “chefes” paroquiais, do que “animadores de animadores”, entrosados no meio do rebanho.
Outro factor negativo é que Moçambique não escapou ao restauracionismo católico clerical que invade a nossa Igreja desde os tempos de João Paulo II. É ainda evidente muita passividade dos cristãos comuns (Luzia, 2014, p. 130). O seminário S. Pio X, o único de teologia no país, ficou sob a influência de duas forças:
1ª A romanização, já que a maioria dos padres formadores passou pelas universidades romanas. Ficaram mais imbuídos da fidelidade teológica e canónica – clerical - aos ditames da cúria vaticana, do que à frescura criativa das suas comunidades ministeriais de origem. Como os políticos, agora, precisam do verniz religioso (apesar das reminiscências das tensões derivadas das nacionalizações dos bens das Missões), há uma certa convergência de interesses conservadores de ambos os lados.
2ª A afirmação nacionalista - Como atitude subjacente ao aforismo “Agora somos nós”, os padres vêm sendo réplica dos bispos que, durante 34 anos, não permitiram a nomeação de nenhum bispo que não fosse negro e moçambicano[14]. Ao autoritarismo típico do clericalismo antigo, junta-se o das tradições anímicas do poder africano. Nem se pode dizer que a 2ª e a 3ª Assembleias Nacionais de Pastoral estejam, rigorosamente, em linha com o espírito da 1ª, em setembro de 1977.
Estas duas condicionantes criaram, a meu ver, a distância psicológica e afectiva dos novos padres (sobretudo diocesanos) relativamente ao paradigma das PCC ministeriais.
A nomeação de quatro bispos estrangeiros vem criando espaços de maior abertura nos novos padres, mais realistas, menos nacionalistas sem, por isso, serem menos patriotas e culturalmente autênticos. A reafirmação conciliar do Papa Francisco reflectir-se-á no ambiente presbiteral, a começar pelos seminários, presentemente sob o cuidado do Bispo do Gurué, Francisco Lerma, um dos principais promotores, desde há mais de 40 anos, das PCC[15].

Celebração da eucaristia nas comunidades
Não podia deixar de abordar este delicado problema. Milhares de comunidades não têm a regular celebração dominical da eucaristia. Dada a escassez de presbíteros celibatários, o Bispo Vieira Pinto, logo nos alvores da independência, se interrogou: Não terá chegado o tempo de pensarmos seriamente na ordenação sacerdotal de cristãos casados, propostos e assumidos pelas comunidades? (Pinto, 1975a). Porém, creio que na última visita ad limina Apostolorum, o Papa João Paulo II, à mesa de almoço, foi peremptório: “D. Manuel, nisso não se fala mais”. E o Bispo Manuel, com sentida amargura, teve de se render a que a multidão das comunidades cuja pujança despertara e seguira a par-e-passo continuasse sem a celebração do sacramento-fonte da Igreja. Esta injustiça continua a clamar por solução. O emergente tipo de turbo-padre, correndo de uma comunidade para outra, na sua boa intenção pastoral, é falaciosa. Com o Bispo Lobinger[16], luto por soluções teológica e pastoralmente mais consistentes. E mais justas.
Nampula, Maio de 2015
José Luzia
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Bibliografia
Bertuli, C., Croce e spada in Mozambico,1974, Roma, Editora Coines.
Borges, A., D. Manuel Vieira Pinto – Arcebispo de Nampula. Cristianismo: Política e Mística. Antologia, introdução e notas, 1992, Porto, Edições ASA.
Ferreira, L., A Igreja Ministerial em Moçambique, 1987.
Lobinger, F. e Zulehner, P., Padres para Amanhã, 2007,São Paulo, Editora Paulus,
Original: Priests for tomorrow, 2004, Claretian Publications, Philippines
Lobinger, F., Equipes de ministros ordenados, 2009, São Paulo, Editora Paulus.
Original: Teams of elders, 2007, Claretian Publications, Philippines
Luzia, J.:
- A Igreja das Palhotas, 1989, Lisboa, CRC.
- Uma Igreja de Todos e de Alguém, 2014, Prior Velho (Portugal), 3ª edição, Ed. Paulinas

Pinto, Manuel Vieira - in http://arquidiocesedenampula.blogspot.com /Património pastoral do Arcebispo Manuel Vieira Pinto
- A Caminho de Novas Estruturas Missio-Pastorais (1969)
- Estamos numa Hora de Viragem (1971)
- Das missões à Igreja local (1972)
- Passado - Igreja - Futuro (1975a)




[1] Esta situação criou fortes tensões, mesmo no interior da Igreja. No fim do colonialismo, levaram à prisão e expulsões de missionários de Beira e Tete (1971-73) e do Bispo de Nampula e Padres Combonianos (Páscoa de 1974); Cf Bertuli; Borges, pp. 63, 79.
[2] Borges, pp. 60-64; 76-77; 80.
[3]Borges, p. 75.
[4] Pinto, 1972.
[5] Pinto, 1971.
[6] Idem.
[7] Pinto, 1975c.
[8] Só na Diocese de Nampula: 5 padres expulsos, 1 repatriado, 12 presos: Borges, pp. 80-81.
[9]Respigo da entrevista de Setembro de 1988, nos dias da visita do Papa João Paulo II a Moçambique, no auge da guerra civil. In Luzia, 1989.
[10] Durante a guerra civil terminada em 1992, o país experimentou movimentações de refugiados nos países vizinhos e de deslocados internamente de muitos milhares de pessoas. As comunidades, assim deslocadas, residindo na vizinhança das comunidades de acolhimento, mantinham a sua denominação de origem. Com o Acordo de Paz, regressaram aos seus lugares de origem.
[11] Pai do jovem Padre Wilson Riveque, dos Missionários de S. João Baptista, ordenado em 2011.
[12] Luzia (1989), p.50.
[13] Luzia (1989), pp. 73-79; Ferreira, p. 127; Borges, pp. 81-83.
[14] Desde 2009 foram nomeados 4 bispos, de origem estrangeira e com ligações ao país como missionários: o Bispo Élio Greselim (Lichinga, 2009, emérito em 2015); o Bispo Francisco Lerma (Guruè, 2011); o Arcebispo Claudio (Beira, 2012); o Bispo Luiz Lisboa (Pemba, 2013). Um padre diocesano disse ao seu bispo que estas nomeações eram um juízo do Vaticano. Felizmente, estes 4 bispos são conhecidos pela sua visão de “Igreja Comunidade de Comunidades ministeriais”.
[15] Por uma amostragem muito aleatória fiquei com a impressão de que não serão muitos os padres ordenados nas dioceses de Moçambique, nos últimos 15 anos, que conheçam todos os documentos do Vaticano II.
[16] Lobinger, 2007 e 2009.